Está procurando algo no blog? Pesquise AQUI

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Direito de ir e vir?


Hoje dia 24 de Setembro de 2009, eu volto a esbarrar numa das premissas básicas. O direito de ir e vir. E por que não também no direito a liberdade de expressão.
Estávamos ensaiando nossa peça de conclusão de curso, nosso TCC, intitulado “Primeiro Crime” na rua XV de Novembro, quando uma das atrizes em meio a sua ação cênica é abordada pelos policiais e é revistada.
Agora analisemos e situação concreta, ipisis literis como aconteceu.
A ação da atriz era: andar pela Rua XV de Novembro e em certos momentos como achasse conveniente, cair. Esperar alguém socorrê-la ou não e soltar seu texto: “Eu sempre precisei da ajuda de estranhos”. Texto esse retirado da personagem Blanche da peça “Um bonde chamado desejo”.

Parênteses: Estamos ensaiando esta peça desde Janeiro e com esta formatação de intervenção cênica na rua, desde Junho do corrente ano. Já fizemos uma apresentação prévia, de mostra de processo em Julho, quando pedimos liberação para a Secretaria de Urbanismo e para a Guarda Municipal da cidade de Curitiba.
Mas voltando. Eis que estávamos ensaiando e em uma das quedas dois policiais vêm acudi-la. O resto da companhia que acompanhava a atriz, prontamente chega e explica a situação: “Isto é uma peça de teatro”.
Entregamos o “cartão” da companhia com todos os contatos e estes entendem a situação. A atriz se levanta e continua caminhando para continuar o ensaio, eis que outros quatro policiais que se encontravam do outro lado da rua a abordam “delicadamente”como é de costume da profissão e ordenam: “Mão na cabeça, encosta na parede”. A policial
feminina imediatamente começa a revista-la soltando as frases: “Vc está drogada! Vc usa drogas!”.

Cabe dizer que a atriz em questão é uma, digamos assim, “filhinha de papai”, que nunca em toda sua vida sonhou que algo do gênero
pudesse acontecer a ela.

Ela fica muda e obedece as ordens prontamente.
Nisso novamente, nós da companhia nos aproximamos dos outros policiais para explicar a situação (enquanto ela continuava levando uma “geral”), mas não sendo ouvidos, ouvimos as seguintes frases repetidamente de todos os presentes: “Isto é uma palhaçada!”, “Vão estudar, fazer uma faculdade, não ficar fazendo esta besteira na rua”.

Um dos policiais toma a frente e “ouve” o que temos a dizer, e nos questionando sobre o porque da “palhaçada”. Alguns minutos se
passam e ele fala para encaminharmos as solicitações de liberação para todos os órgãos competentes avisando sobre o evento. Não confirmando se o pedido seria aceito ou analisado.

Agora eu pergunto: Cadê a PORRA dos direitos colocados na Constituição!
E que instituição é essa que formata as pessoas a agirem de
forma autoritária, intransigente e débil. Como alguém se vê no direito de julgar as pessoas? De julgar pessoas que mesmo explicando o evento cênico que estava acontecendo, sem ter no mínimo noção do que isto significa. Ter a pachorra de dizer que “show” se faz num lugar marcado com todas as pessoas avisadas e paradas assistindo? Nosso trabalho discute a ORDEM e todos os mecanismos criados pelo homem para que isso aconteça da forma como as instituições querem. Como o Governo quer. As câmeras de vigilância colocadas por todo o centro de
Curitiba para a suposta segurança das pessoas. Os guardas que revistam uma menina porque ela está caindo na Rua XV de Novembro, enquanto pessoas fumam maconha na Praça Santos Andrade, mendigos dormem na Rua XV, pivetes espreitam os passantes pedindo dinheiro e cigarro e esperam a oportunidade para um possível furto. Onde ali há duas quadras está aglomerada o tráfico de crack e pó da cidade, onde homens, mulheres e crianças queimam pedras a plena luz do dia. Onde
pessoas são assaltadas e ninguém as socorre. Lugares que todos sabem como operam, mas ninguém interfere.

Porque o traficante não está caindo na Rua XV de Novembro, atrapalhando a calma passagem dos transeuntes. Porque os
assaltantes não estão encenando uma peça de teatro. Porque a moral dos policiais não é ferida por eles. Os policiais não se sentem idiotas, como se sentiram parando uma atriz. Os policiais não ficam calados, com raiva, porque ao “fazerem”seu trabalho, revistaram uma atriz.

Estou indignada sim! Por essa falsa moral das pessoas. Por uma atitude tomada por causa de um ego ferido. Fico sim, revoltada, por ter sido classificada, rotulada e julgada, por pessoas que nem ao menos me conhecem, ou conhecem um trabalho de pesquisa em teatro.
É claro, ficamos calados, vamos tomar todas as providências dadas
pelo policial. Vamos nos enquadrar na ORDEM estabelecida que está acima da constituição e dos direitos nela contidos. Vamos nos privar de ter várias possibilidades de uma pesquisa séria que é desenvolvida ao longo de uma Faculdade de Artes, porque precisamos avisar os órgãos públicos de que queremos questioná-los. Questionar esta estrutura que poda tudo que se foge ao controle.

Porque a capital ecológica, a “cidade sorriso”, não suporta intervenções
urbanas. Porque a capital símbolo de organização no sistema de transporte público , não quer atores e atrizes conturbando a “ordem”.

2 comentários:

Coisas da vida ...pra ser óbvio disse...

Acho essa uma boníssima oportunidade para o trabalho da Subjétil, pena não ter sido filmado, o ataque que parece a melhor defesa para os iguinorantes, o despreparo dos mantenedores da Lei e Ordem,mas principalmente a falta de respeito com que agem os que nos pedem respeito.

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.